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LGPD no escritório contábil: você é controlador, operador ou os dois?

O escritório contábil processa mais dado pessoal por metro quadrado do que quase qualquer outro negócio: CPF, holerite, declaração de IRPF, extrato bancário, pró-labore. E ainda assim a maioria dos contadores não sabe responder se é controlador ou operador sob a LGPD, o que muda essa resposta, e o que fazer quando o cliente pede pra apagar tudo de uma vez.

LGPD no escritório contábil: você é controlador, operador ou os dois?

O escritório contábil lida com dado pessoal o tempo todo. CPF de funcionário, holerite, declaração de IRPF, extrato bancário do sócio, planilha de pró-labore: são dados pessoais, boa parte deles dados pessoais sensíveis na leitura ampliada da LGPD. E a pergunta que quase nenhum contador consegue responder com segurança é: afinal, eu sou controlador ou operador dos dados que processo?

Não é questão acadêmica. É o que define se você responde sozinho em caso de vazamento, se pode recusar pedido de exclusão, e o que precisa estar no seu contrato de prestação de serviços.

Controlador ou operador: quem decide, manda

A LGPD define controlador como quem toma as decisões sobre o tratamento: finalidade, meio, o que coletar, por quanto tempo guardar (art. 5º, VI). Operador é quem processa dados seguindo instrução do controlador, sem autonomia pra decidir nada disso (art. 5º, VII).

Na prática contábil, a resposta costuma ser: os dois ao mesmo tempo, dependendo do dado. Quando o escritório processa a folha de pagamento dos funcionários do cliente seguindo as regras do cliente, o escritório atua como operador. O controlador é o cliente. Mas quando o escritório insere esses dados no próprio CRM pra oferecer outro serviço, ou usa o histórico do titular pra qualquer finalidade própria, o escritório vira controlador daquela operação.

Nossa leitura: a maioria dos escritórios contábeis é operador em relação aos dados dos clientes de seus clientes, como os funcionários da empresa-cliente e os dependentes declarados. E é controlador dos dados dos clientes diretos e dos próprios funcionários. Essa distinção muda quem responde por vazamento e quais direitos o titular pode exercer contra você.

O contrato precisava ter cláusula de dados desde 2020

Quando o escritório atua como operador, o art. 39 da LGPD exige que o controlador imponha obrigações ao operador por contrato. Em outras palavras: o contrato de contabilidade precisa ter cláusula de proteção de dados, o que costuma se chamar de DPA (Data Processing Agreement). Pode ser cláusula dentro do contrato ou adendo separado.

Essa cláusula precisa definir, no mínimo: quais dados são tratados, com qual finalidade, por quanto tempo, o que o escritório pode fazer com eles, e o que acontece com os dados quando o contrato encerra. Sem isso, o escritório opera em cinza jurídico. Se vazar dado do funcionário do cliente, pode ser responsabilizado mesmo sem ter feito nada de errado, simplesmente por falta do instrumento que a lei exige.

Falando sério: a maioria dos contratos de contabilidade que a gente revisa em Blumenau e no Vale do Itajaí ainda não tem essa cláusula. Nem os fechados depois de 2020.

Retenção fiscal não conflita com LGPD: é base legal

Um equívoco recorrente: "o cliente pediu pra apagar os dados, mas a gente precisa guardar por 5 anos por causa do Fisco". Isso não é conflito, é solução. O art. 7º, II da LGPD autoriza o tratamento de dados quando necessário para cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo controlador. Guardar DCTF, ECF, EFD, DIRF e eSocial pelo prazo decadencial do CTN é obrigação legal. O escritório pode recusar pedido de exclusão com base nisso.

O que a LGPD exige: comunicar ao titular a razão da recusa dentro de 15 dias do pedido (art. 19). Sem resposta no prazo, o titular pode registrar queixa na ANPD. Os principais prazos de guarda no contexto contábil:

  • Documentos fiscais federais: 5 anos (decadência e prescrição tributária, CTN arts. 173 e 174)
  • FGTS: 30 anos para ações de cobrança (Súmula 362 do TST)
  • eSocial e folha: 5 anos como regra geral trabalhista
  • IRPF do cliente pessoa física: 5 anos após entrega da declaração

O escritório não vai poder apagar quase nada em 5 anos. Mas precisa saber por que guarda cada categoria e ter esse fundamento documentado. "Guardamos porque sempre guardamos" não é fundamento legal.

Sistemas contábeis e o problema do suboperador

O escritório usa sistema de gestão contábil. Esse sistema processa dados pessoais dos clientes e dos clientes dos clientes. Quem responde pelo que o sistema faz com esses dados? Aqui entra o conceito de suboperador: quando o operador contrata fornecedor pra processar dados em seu nome, esse fornecedor precisa de base contratual pra isso, e o operador continua responsável.

A questão prática: o contrato com o fornecedor do sistema (Domínio, Alterdata, Calima ou qualquer outro) tem cláusula de proteção de dados? Se o sistema roda em nuvem, os servidores ficam no Brasil ou no exterior? Se no exterior, há transferência internacional de dados, o que exige fundamento adicional no art. 33 da LGPD. Se o fornecedor vazar dados dos clientes do escritório, o escritório pode ser co-responsabilizado perante os titulares.

Poucos escritórios contábeis revisaram os termos de uso dos sistemas que utilizam sob o ângulo da LGPD. Vale pedir ao fornecedor o DPA. Fornecedores maiores costumam ter o documento disponível mediante solicitação. Se o fornecedor não tiver nenhum instrumento, isso já é sinal de risco concreto.

Compartilhamento com a Receita Federal não exige consentimento

A Receita Federal recebe volume enorme de dados pessoais via obrigações acessórias: SPED Fiscal, SPED Contábil, eSocial, ECF, EFD-REINF, DIRF. O escritório envia isso como parte do serviço. Precisa de consentimento do titular pra cada envio? Não. O fundamento é o art. 7º, II: cumprimento de obrigação legal. A obrigação de entregar essas declarações é da empresa, executada pelo escritório como operador.

O que muda com a LGPD: a empresa precisa informar seus titulares quais dados são compartilhados com órgãos governamentais e com qual finalidade. Isso vai na política de privacidade da empresa, não num consentimento individual por envio. O escritório pode e deve orientar o cliente a incluir isso na política de privacidade dele.

O que fazer nas próximas duas semanas

Não precisa de programa de adequação completo pra começar a reduzir risco agora:

  • Revise um contrato de cliente: tem cláusula de proteção de dados? Se não, elabore adendo simples definindo quais dados são tratados, finalidade e o que acontece ao encerrar o contrato.
  • Mapeie onde ficam os dados dos clientes: sistema local ou nuvem? Quem tem acesso? Peça o DPA ao fornecedor do sistema contábil.
  • Indique seu encarregado (art. 41): pode ser você mesmo se for escritório pequeno. Divulgue o e-mail de contato no site e no contrato. A Resolução CD/ANPD 02/2022 prevê regime simplificado pra PMEs, mas a indicação é obrigatória.
  • Monte um log de pedidos de titulares: se um funcionário do cliente pedir acesso ao dado que você processou, você tem 15 dias pra responder. Precisa de processo, não de improviso.

A ANPD aplica sanções desde agosto de 2021. A multa administrativa pode chegar a 2% do faturamento bruto no Brasil no último exercício, limitada a R$ 50 milhões por infração. Escritório contábil não está fora desse radar: processa dado sensível de muita gente ao mesmo tempo, o que aumenta o potencial de dano em qualquer incidente.

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