Empresarial · Direito Empresarial · 4 min de leitura

Contrato em linguagem simples: o que você ganha e o que você perde

A movimentação pela linguagem simples no direito soa razoável à primeira leitura. Tem razão parcial. Mas há uma confusão de diagnóstico que, se virar regra geral, vai custar caro pra quem assina documentos achando que entende tudo.

Contrato em linguagem simples: o que você ganha e o que você perde

Tem uma ideia circulando nos corredores jurídicos que soa muito razoável: o direito é complexo demais porque os advogados complicam de propósito. A solução seria reescrever tudo em linguagem simples, tirar o juridiquês, fazer o contrato parecer com uma conversa normal. A proposta não é nova, mas voltou com força no debate acadêmico recente.

Concordamos com metade. O juridiquês ornamental, o latim desnecessário, as construções arcaicas, o rebuscamento que não acrescenta nada, é um vício real. Mas há um salto lógico perigoso aí: do "vamos eliminar o que não serve" para o "vamos simplificar tudo". É nesse salto que mora o risco para quem assina contratos.

Quando "mais fácil de ler" vira "mais difícil de executar"

Língua jurídica não é pomposa por acidente. Ao longo de séculos de conflitos, julgamentos e interpretações, os termos foram sendo refinados para carregar significados muito específicos. "Inadimplemento absoluto" não é a mesma coisa que "não pagou". "Cláusula resolutiva expressa" não é o mesmo que "se não cumprir, o contrato acaba". A diferença entre esses termos pode definir se você tem ou não direito a indenização, a prazo de cura, à resolução imediata do vínculo.

Quando um contrato troca esses termos por equivalentes coloquiais, acontecem duas coisas ao mesmo tempo: o texto fica mais fácil de ler na assinatura, e mais difícil de defender num litígio. O juiz ou árbitro vai interpretar o documento com base na linguagem técnica consolidada pela jurisprudência. Se o contrato usa linguagem diferente, abre espaço para a parte contrária argumentar que aquele dispositivo não é o que você acha que é.

Nossa leitura: o problema não é a complexidade da linguagem. É a falta de explicação. Um cliente que entende o que está assinando não precisa de um contrato reescrito como tutorial. Precisa de um advogado que explica.

Juridiquês ruim e termos técnicos precisos são coisas diferentes

Essa distinção importa e raramente é feita no debate. Existem duas categorias bem distintas, e misturá-las é o erro central da movimentação pela simplificação total:

  • Juridiquês ornamental: latinismos sem função prática, construções arcaicas como "outrossim" e "doravante denominado", períodos de oito linhas que poderiam ser dois. Isso é ruim, não serve a ninguém e envelhece o documento sem acrescentar nada.
  • Terminologia técnica precisa: "sub-rogação", "solidariedade passiva", "perda de uma chance", "inadimplemento antecipado". Esses termos carregam décadas de jurisprudência consolidada. Substituí-los por sinônimos coloquiais não simplifica. Dilui a proteção que eles oferecem.

A movimentação pela linguagem simples frequentemente mistura as duas categorias. E quando faz isso, elimina o ornamento junto com a precisão. O contrato fica mais legível. E mais poroso.

O que um dono de empresa deve exigir do advogado

Se você é quem assina contratos, o que vale é entender o documento, não que o documento seja escrito de forma coloquial. São coisas diferentes. E a distinção tem consequências práticas imediatas.

Você pode, e deve, exigir:

  • Que seu advogado explique cada cláusula relevante antes da assinatura, em linguagem que você compreende
  • Que o documento elimine o rebuscamento inútil, aquele que não cumpre nenhuma função jurídica
  • Que os termos técnicos que ficam sejam explicados numa reunião, num memo ou num sumário executivo separado
  • Que as obrigações principais, o que você deve fazer, até quando e o que acontece se não fizer, estejam visíveis, sem precisar ler vinte páginas de boilerplate antes

O que você não deve exigir, porque pode se prejudicar: um contrato onde "rescisão por justa causa" foi substituído por "pode encerrar se a outra parte fizer coisa errada". Essa frase vai ser interpretada de forma muito mais aberta do que o original, e o beneficiado nessa abertura raramente é você.

A questão real por trás do debate

Falando sério: o debate sobre linguagem jurídica tem um componente legítimo que precisa ser reconhecido. Documentos públicos, legislação, regulações, intimações, decisões judiciais, afetam pessoas que não têm advogado. Aí a linguagem simples faz muito mais sentido. Cidadão que recebe uma notificação do fisco ou um contrato de adesão precisa entender o que está assinando sem precisar contratar um especialista para interpretar cada parágrafo.

Mas entre documentos de direito público voltados a cidadãos e contratos empresariais complexos há uma distância enorme. Confundir os dois contextos é confundir o diagnóstico. E diagnóstico errado leva a remédio errado. Mesmo bem-intencionado.

O objetivo real deveria ser clareza sem perda de precisão. Isso não se resolve reescrevendo o contrato em linguagem de mensagem de texto. Se resolve com advogado que explica, com documentos estruturados de forma lógica, com sumários executivos nas negociações relevantes. A língua técnica pode coexistir com a compreensão. Basta ter alguém que faça a ponte entre os dois mundos, em vez de demolir um deles.

Na prática: antes de qualquer assinatura relevante, peça ao seu advogado um resumo executivo das cláusulas que mais importam. Prazo, obrigações, penalidades, foro, limitação de responsabilidade. Não precisa reescrever o contrato. Precisa entender o que ele diz, com toda a precisão que a proteção jurídica exige.

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