Na próxima quarta-feira, 10 de junho, o STF recebe o lançamento do Anuário da Justiça Brasil 2026. Vinte anos de uma publicação que, edição por edição, mapeou as decisões que moldaram contratos, tributação e relações de trabalho no país. Pra quem administra uma empresa, esse aniversário não é evento de cerimonial. É o retrato de duas décadas em que os tribunais superiores se tornaram protagonistas diretos dos custos de se fazer negócio no Brasil.
O Supremo julgou modulações tributárias que devolveriam bilhões a empresas e, depois, restringiu o alcance dessas mesmas decisões. O STJ firmou teses sobre responsabilidade contratual que afetam diretamente como redigir um acordo comercial. O TST construiu, ao longo dos anos, interpretações sobre vínculo empregatício que ainda hoje assombram o planejamento de qualquer empresa que usa prestadores de serviço. Nada disso surgiu do nada. Tudo tem histórico, e o histórico é rastreável.
Vinte anos de corte que decide o preço dos seus riscos
Quando a gente fala que "o STF vai decidir", a maioria dos empresários ainda entende isso como algo distante, coisa de advogado. A realidade é outra. Nos últimos 20 anos, o Supremo julgou temas que afetaram diretamente a carga tributária de setores inteiros: exclusão do ICMS da base do PIS/Cofins, modulação de efeitos em teses tributárias, limites à coisa julgada em matéria fiscal. Cada uma dessas decisões virou risco real ou oportunidade real, dependendo de quem estava monitorando e quem estava dormindo.
O STJ, por sua vez, consolidou entendimentos sobre juros, prescrição, responsabilidade civil de fornecedores e cobrança de dívidas que qualquer empresa que vende a prazo ou contrata serviços precisa conhecer. Não porque vai recorrer ao STJ amanhã, mas porque os tribunais estaduais seguem essas teses. É lá que a maioria dos litígios empresariais começa e termina.
E o TST? Vinte anos de jurisprudência trabalhista mostram um tribunal que oscilou bastante. Antes da Reforma Trabalhista de 2017, a tendência era expansiva, reconhecendo vínculos e ampliando direitos. Depois, houve revisão. Hoje, o debate sobre pejotização, terceirização e trabalho por plataformas cria um cenário onde quem não monitora tendências da corte fica preso em modelos que já foram contestados centenas de vezes.
O que o Anuário representa como ferramenta estratégica
Uma publicação que sistematiza as principais decisões dos tribunais superiores ao longo de 20 anos não é livro pra estante de escritório. É fonte de inteligência sobre onde os litígios se acumulam, quais teses têm prevalecido, quais ainda estão abertas. O Anuário da Justiça opera exatamente nisso: consolida o que foi decidido e, indiretamente, sinaliza o que ainda vai ser.
Na prática: empresas que acompanham as tendências dos tribunais superiores conseguem antecipar riscos contingenciais, revisar provisões contábeis com mais precisão e identificar janelas de recuperação tributária ou revisão de passivos trabalhistas antes que o assunto vire litígio. As que não acompanham descobrem tarde demais.
- Tributário: teses de PIS/Cofins, IRPJ, CSLL, exclusão de tributos da base de cálculo de outros tributos. O STF e o STJ têm histórico de decisões que geram créditos retroativos relevantes para empresas que monitoram e perda de caixa para as que não monitoram.
- Trabalhista: vínculo empregatício de prestadores, horas extras de técnicos externos, terceirização lícita. O TST tem entendimentos consolidados que definem o nível de risco de cada modelo operacional adotado.
- Comercial e contratual: jurisprudência do STJ sobre inadimplemento, resolução contratual e responsabilidade por fato do produto. Afeta diretamente como redigir contratos com fornecedores e distribuidores.
- Recuperação e insolvência: tendências do STJ sobre habilitação de crédito, extensão da recuperação judicial e proteção de garantias reais em execuções.
O risco de não acompanhar
A gente vê esse padrão com frequência: empresa que estava correta há cinco anos, operando dentro do que a legislação permitia, mas ignorou que a jurisprudência se moveu. Quando o problema aparece, o passivo já é grande o suficiente pra causar dano real. Não porque a lei mudou. Porque a interpretação consolidada dos tribunais mudou, e isso tem o mesmo efeito prático.
Dois exemplos concretos. Pejotização é um modelo que existe há décadas, mas a tolerância dos tribunais a ele oscilou. Quem não monitorou foi surpreendido com autuações e reclamações trabalhistas em série. Crédito de PIS/Cofins sobre insumos é outro caso: o STJ consolidou uma interpretação mais ampla sobre o conceito de insumo, e empresas que não revisaram seus processos deixaram créditos na mesa por anos, às vezes mais de uma década.
Esses não são casos isolados. São padrões que o Anuário da Justiça, ao longo de 20 anos, ajudou a tornar visíveis pra quem prestou atenção.
O que fazer com essa informação agora
Nossa leitura: os 20 anos do Anuário são um lembrete de que jurisprudência não é só problema de advogado. É variável de gestão. Empresa que trata risco jurídico como reativo, que só se preocupa quando recebe citação ou autuação, está tomando decisão com informação incompleta.
O mínimo que qualquer empresa com faturamento relevante deveria fazer é uma revisão anual das principais teses dos tribunais superiores nas áreas que afetam seu negócio. Tributário, trabalhista, comercial. Não pra entrar em litígio. Pra evitar.
Essa semana, com o lançamento do Anuário 2026, é um bom momento pra perguntar pra quem cuida do jurídico da sua empresa: quais as três teses dos tribunais superiores que mais impactam nosso setor em 2026? Se a resposta vier rápida e com dados concretos, ótimo. Se vier vazia ou genérica, é sinal de que tem trabalho a fazer antes que o passivo apareça na demonstração financeira.
Fale com um advogado da RSA.
Diagnóstico objetivo em até 24h úteis.